Não faz sentido ser economista se não for para lutar contra a fome e a pobreza

Artigo 29/08/2012

Por Marcus Eduardo de Oliveira - Economista, especialista em Política Internacional e Professor de economia da FAC-FITO e do UNIFIEO (São Paulo).


A primeira e, talvez, a mais importante constatação que o economista moderno deve fazer é que hoje, infelizmente, a ciência econômica ignora o indivíduo e se preocupa, exclusivamente, com a acumulação de capital.

Nesse sentido, é forçoso ressaltar que desde seu surgimento a ciência econômica está focada no materialismo, no individualismo e, em larga escala, no “salve-se quem puder”.

A socialização de bens e serviços, a luta por uma boa colocação no mercado de trabalho, a eliminação total da pobreza/miséria e uma justa e equilibrada distribuição da renda, são objetivos que em termos de política econômica tem passado longe das preocupações governamentais. Assim, diante de um quadro social tacanho, com mais de 15 milhões de brasileiros localizados abaixo da linha de pobreza, é enorme o desafio que cabe ao economista brasileiro recém chegado ao mercado de trabalho. O que fazer?, perguntam-me em sala de aula jovens alunos futuros economistas.

Superar desafios: essa é a tarefa!

Cabe exclusivamente ao economista moderno se embrenhar no desafio de entender e propor alternativas para dirimir uma economia repleta de injustiças sociais. Uma economia que sempre cresceu defeituosamente. Uma economia que avança consideravelmente no econômico, mas retrocede sensivelmente no social e humano. Uma economia que se situa na sexta posição entre as mais elevadas e dinâmicas do planeta, mas que congrega uma legião de miseráveis rodeada de muita miséria e indiferença entre seus pares, com uma taxa de analfabetismo elevada, com crianças abandondas às ruas, com mendigos tombados ao chão pela miséria da fome. Diante disso, o que deve fazer o economista moderno? Essa é a pergunta que reiteradas vezes mais tenho ouvido em sala de aula.

Entendemos que ao economista conhecedor teórico dos problemas sociais é necessário ter em mente que um mundo melhor para todos somente será possível quando as gritantes disparidades entre o modo de ser/agir dos ricos e o dos pobres for diminuído substancialmente. Para que isso ocorra, deve o economista moderno pensar antes no social, e fazer com que isso esteja sempre acima do econômico. Jamais o interesse econômico deve se sobrepujar ao social. É o social que deve prevalecer, e não o contrário. Para que isso comece a ocorrer, é necessário entender que um rompimento com a tradicional teoria econômica precisa ocupar lugar, caso contrário nada acontecerá.

Afirmamos isso, pois é nítido o distanciamento entre a teoria econômica e o mundo real. A economia real (a economia que está lá fora nas ruas, nas fábricas, nas favelas, no desemprego, na fome e na miséria) não pode ser mascarada (escondida) como faz a economia tradicional (a que está nas páginas dos Manuais de Introdução à Economia) que continua ignorando os aspectos não-monetários e centrando análises somente nas variáveis que respondem por fazer crescer o riqueza, em lugar de atenuar essa vexatória pobreza que ainda marca vergonhasamente um país, porém com muitos pobres.

Definitivamente, há muitas coisas interessantes que estão “fora” do padrão monetário-financeiro. No entanto, a tradicional teoria econômica apenas tem olhos para o lado rentável.

Esse tipo de economia tradicional, localizada nos manuais acadêmicos, sempre ignorou o aspecto não-monetário, ou seja, o aspecto humano e social. A moderna economia que desejamos ver acontecer precisa equacionar essa pendência, resgatando aquilo que o Papa João Paulo II disse com bastante clareza: “A economia é feita pelos homens e para os homens”. Fora isso, entendemos que não faz sentido ter uma economia que avança no lado monetário ao passo que decai no aspecto social. Ora, se a economia é uma ciência de cunho humanista, nada mais sensato que essa disciplina debruce seus esforços para buscar construir mecanismos de ajuda às pessoas mais carentes. Que fique claro então que o lado não-monetário envolve aspectos da vida, dos desejos humanos que nem sempre passam pelas portas do crédito financeiro, do dinheiro fácil como sendo uma pré-condição para a obtenção de bens e serviços. É necessário entender, uma vez por todas, que o lado não-monetário tem a ver com a real concepção de Economia propugnada pelo magistral Alfred Marshall: “A economia cuida das atividades correntes da vida”. Por isso é urgente “repensar” a economia, mesmo que isso implique na necessidade de se remar contra a maré.

É necessário, para tanto, uma vez mais combinar reflexão com ação. Basicamente, para que o ambiente econômico em questão tenha sucesso nesse desafio de tornar a economia mais humana e menos mecânica, é preciso fazer aquilo que frei Leonardo Boff diz com propriedade: “idéias podemos até tê-las, mas o que realmente move o mundo são nossas ações”.

Se todos estiverem imbuídos desse pensamento as coisas acontecerão em prol de uma economia mais centrada no indivíduo e menos no dinheiro.

A ciência econômica precisa, todavia, em certo momento, remar contra a maré e abandonar o pragmatismo acadêmico, ressaltando aos estudantes essa premissa (a da necessidade de mudanças) que aqui entendemos ser de fundamental importância. Insistindo nesse assunto, é imperioso ressaltar que a ciência econômica precisa se colocar junto à força do povo, buscando promover ações em favor de novos paradigmas. Paradigmas, é imperioso ter isso em voga, em certas ocasiões, são mais fortes que teorias.

Nem tudo se resume a mera questão de mercado

Conquanto, um primeiro passo para que as mudança ocorram, em especial no ambiente econômico, talvez seja fazer com que os economistas modernos e outros cientistas sociais, se sintonizem no fato de que nem tudo se resume a commodities; portanto, nem tudo deve ser condicionado à mera questão do mercado/mercadoria. Por consequência, nem tudo deve se resumir na pré-condição de uma mercadoria (algo qualquer) pronta a ser vendida. O essencial, ou seja, a vida em toda sua amplitude, não está a venda! A economia não pode, nesse pormenor, ser resumida a estreita visão de que o mercado é o único caminho a ser percorrido. É importante salientar que o mercado não produz progresso, apenas o segue.

Essa visão mercantilista, fortemente reforçada pelos mecanismos capitalistas de mercado, e por políticas que tem destruído a proteção social, leva a um fato crucial: tudo está à venda; é assim que querem os donos do dinheiro, os defensores do poder!

De nossa parte, entendemos a economia por outra maneira. Vale aqui aduzir que a economia vai além dos preços; vai além dos mecanismos de mercado, vai além dos números e gráficos, taxas e índices. A economia não se restringe apenas as variáveis consumo/produção. A economia vai além dos fatores não-monetários, para reiterar-se uma vez mais essa premissa. A economia está além do mercado e das vendas. Frei Betto, frade dominicano e escritor brasileiro foi categórico a esse respeito afirmando que “o consumo consome o consumidor”. Em outras palavras, o que Frei Betto diz é que a economia não reconhece direitos, apenas reconhece o poder de compra, daí a extrema necessidade da economia tradicional em valorizar o tempo todo o consumidor; não o cidadão. Cabe procurar escapar a essa “provocação econômica”, pois a vida, definitivamente, não se restringe a compra de meras mercadorias encontradas em prateleiras diversas de merados que não constróem os laços de vida.

As leis do mercado, centradas exclusivamente na venda de tudo, devora o “muito” daqueles que “pouco” tem. Longe dessa visão puramente mercantil (e mercadológica), cabe ao economista moderno pensar primeiramente nos pressupostos que devem nortear uma sociedade que visa o equilíbrio como objetivo central. A mudança para isso passa, inexoravelmente, por entender a economia de outra maneira; passa, outrossim, por visualizar a ciência econômica com as lentes do social.

Para tanto, o economista moderno deve ser pôr radicalmente contra a exclusão e a desigualdade sócio-econômica. O economista de hoje deve insistentemente se posicionar à favor da igualdade, entendendo claramente que essa conquista não combina com exclusão; assim como liberdade não combina com injustiça, assim como fome não combina com exportação de alimentos e vitaminas, tal qual ocorre pelas bandas de cá.

O tipo de sociedade que o economista moderno deve pensar (e procurar propor) tem de necessariamente passar pela cooperação, em lugar da competição. Esta última, até mesmo por ser quase sempre praticada de maneira desigual privilegiando apenas os mais abastados, apresenta evidências suficientes que servem apenas para dividir e segregar os que pouco tem. A lógica do mercado é pontual: Quem ganha na competição se dá bem. The winner takes it all, (O vencedor leva tudo!) diz o título de uma canção do grupo musical sueco Abba. O perdedor? Ah, esse será um eterno excluído! A ele dá-se as batatas! Será isso justo? Não estaria faltando uma “variável” chamada cooperação para promover uma sociedade mais fraterna?

Segundo cremos, a cooperação em lugar da competição pode ser à luz que falta àqueles que hoje vivem completamente à margem dos benefícios, tanto econômicos, quanto sociais. Entendemos que é nessa direção que o economista moderno deve direcionar esforços. Antes de qualquer outra coisa, é nessa linha de conduta que o economista moderno deve remar contra a maré da sabedoria econômica tradicional.

As causas e consequências da pobreza em que vive 1/3 dos brasileiros devem ser ensinadas pelas ciências econômicas como sendo a mais abjeta situação, comparável a ignomínia da escravidão que marcou esse país por séculos. Essa deve ser a primeira lição ensinada no primeiro dia de aula no primeiro ano do curso de graduação em Ciências Econômicas. E essa mesma “preocupação” social deve continuar nos cursos de pós-graduação na área de Economia, bem como de todas as outras ciências sociais. Essa preocupação com o social precisa nortear, definitivamente, as ações de nossos economistas e cientistas sociais.

Dentro dessa perspectiva, há uma passagem ilustrativa de Ladislau Dowbor, economista francês radicado no Brasil, em O Mosaico Partido, que abrilhanta essa assertiva: “Quem não entende os processos econômicos, acaba não entendendo coisas tão elementares como porque somos capazes de façanhas fenomenais como as viagens no espaço, mas somos incapazes de reduzir a tragédia de 11 milhões de crianças que morrem anualmente de fome e outras causas absurdas, ou ainda de conter o ritmo de destruição ambiental do planeta. Já estamos tentando brincar de criadores clonando a vida, mas não somos capazes de resolver o problema do carrapato”.

A pobreza, a fome, a miséria, as crianças abandonadas, os analfabetos e todo e qualquer outro tipo de exclusão social devem ser os temas de maior interesse do economista moderno; principalmente em sociedades com elevados índices de desigualdades. É simplesmente inadmissível aceitar que no mundo de hoje haja gente passando fome em qualquer parte do planeta, visto que os recursos para acabar com a fome sobram, chegam a ser até mesmo abundantes.

De toda sorte, a ciência econômica precisa resgatar seu DNA social, afinal, esse campo do conhecimento “nasceu” para dar uma resposta positiva aos problemas sociais que tanto aflinge o homem moderno. Certamente, os problemas sociais que marcam a ferro e fogo a desigualdade social no Brasil, precisam ser pensados a todo instante por aqueles que têm a rara oportunidade de dirigir a vida econômica do país.

Definitivamente, o que deve ser entendido é que por meio das conhecidas políticas econômicas abre-se grande chance de mudar a vida de milhões de pessoas. Mudar para melhor a vida de milhões de pessoas: eis a grande tarefa que cabe ao economista moderno.
 


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