A indústria regional em tempos de crise

Artigo 17/02/2019

A professora adjunta do Departamento de Economia da UFPB, Wanderleya Farias, analisa, em artigo, a importância da indústria regional em tempos de crise.


A indústria ocupa um lugar de grande importância na dinâmica econômica. Os setores industriais mais complexos realizam investimentos constantes em pesquisa e desenvolvimento e têm um papel determinante nos fluxos intersetoriais de tecnologia.  As inovações tecnológicas são transmitidas aos demais setores que as incorporam em novos produtos ou processos.

Em 2017, o PIB industrial do país chegou alcançar cerca de R$ 1,15 trilhão. Conforme a CNI – Confederação Nacional das Indústrias, em 2018, as exportações de industrializados alcançaram o valor de US$(FOB) 107,39 bilhões e representaram 48,8% das exportações brasileiras. Na fase atual, são mais de 472 mil estabelecimentos industriais em funcionamento em todo território nacional que empregam cerca de 9,3 milhões de pessoas.

A crise que atingiu a economia do país nos últimos anos causou impactos sobre o desempenho do setor industrial.  Entre 2014/2016, a indústria apresentou declínio no uso de capacidade instalada. No entanto, a partir de 2017, diversos segmentos industriais voltaram a crescer. Segundo sondagem realizada pela CNI, três, em cada quatro grandes empresas industriais, (76%) investiram no Brasil no mencionado ano. Vários cenários são possíveis para 2019. No entanto, cabe lembrar que um dos aspectos intrínsecos à economia é seu movimento cíclico, a expectativa dos mercados é de que ocorra uma retomada da confiança quanto à expansão da produção e que novas inversões comecem a deslanchar em algumas regiões do país.

            O PIB industrial do Nordeste, em 2016, segundo os dados das Contas Regionais do IBGE, chegou ao valor de R$ 154,5 bilhões. Em torno de 68,5% da produção industrial da região, no referido ano, estava espacialmente concentrada em apenas três estados. A Bahia teve uma participação percentual de (35,00%),  Pernambuco(18,36%)  e Ceará(15,13%). Com economias mais dinâmicas e com uma estrutura consolidada de pólos industriais em segmentos complexos da indústria de transformação e de serviços de utilidade pública industrial, esses estados mantém uma posição de liderança na indústria regional desde a década de 1970, quando foram realizados grande investimentos mediante os incentivos fiscais e financeiros da SUDENE.

Os estados do Piauí(3,04%)  e Alagoas(3,59%) foram os que apresentaram as menores participações na geração de produtos industriais. O PIB industrial da Paraíba alcançou a sexta melhor colocação ( R$ 52,8 bilhões), essa produção representou 5,32% do PIB industrial regional em 2016.

Destaque-se que a Política Nacional de Desenvolvimento Regional (PNDR) e o Plano de Aceleração de Crescimento(PAC), adotados na segunda metade dos anos 2000, trouxeram bons ventos para a base industrial regional. O incentivo a ampliação do investimento público em infraestrutura energética (petróleo, gás e energia elétrica), infraestrutura social e urbana (habitação e saneamento), e infraestrutura logística (rodovias, ferrovias, portos e aeroportos) promoveu a realização de diversos projetos industriais nas áreas de construção civil, serviços de utilidade pública industrial e da indústria de transformação em unidades federativas da região.

A Bahia tinha um PIB industrial de R$ 54,08 bilhões em 2016, resultante da atividade de 16.856 estabelecimentos industriais que geravam em torno de 350.660 postos de trabalho. Os setores com mais peso na indústria baiana eram: construção civil(27,3%), derivados de petróleo e biocombustíveis(16,4%) e serviços de utilidade pública industrial(12,1%).

Os estados do Maranhão e Rio Grande do Norte ocupavam, respectivamente, as quarta e quinta colocação no ranking industrial da região Nordeste em 2016. Chama atenção que, mais uma vez, o setor da indústria que liderava a produção industrial nessas unidades federativas era o setor da construção civil,. No estado maranhense, esse peso era de (38%) e no Rio Grande do Norte(32,9%).

Na Paraíba, houve um expressivo fluxo de investimentos no ramo cimenteiro a partir de 2010. Grandes unidades de produção dos grupos empresariais LafargeHolcim, Brennand, Votorantin e Elizabeth Cimentos foram instaladas nos municípios da Microrregião do Litoral Sul. Outros ramos industriais como produção de painéis solares, estruturas metálicas pré-moldadas, vidros planos, materiais plásticos, produtos têxteis e calçados, segundo dados do Ministério da Indústria e Comércio, também foram receptores de inversões no referido economia estadual.

 

Segundo as contas Regionais do IBGE, em 2016, o setor que ocupava a liderança na produção industrial da Paraíba era o da construção civil(35,5%). O setor de Serviços Industriais de Utilidade Pública era o segundo lugar em Valor Bruto da Produção (21,2%) seguido de couro e calçados( 12%). Com uma tradição histórica na produção de curtumes e com arranjos produtivos calçadistas em algumas áreas do estado, a Paraíba é o 3º maior exportador de calçados do Brasil.

A Paraíba foi, dentre os estados nordestinos, o que conseguiu exibir uma das menores taxas de queda no ritmo de desempenho da indústria entre os anos de 2007/2016, Parte desse resultado está relacionado aos novos empreendimentos industriais de pequeno, médio e grande porte que foram instalados no estado ao longo do período histórico citado. A crise ainda é um fenômeno que inibe uma expansão mais robusta da indústria ao nível estadual, regional e no âmbito do país, mas, ainda assim, vê-se que, alguns empreendimentos aproveitam as  janelas de oportunidade para deslanchar novos projetos nas fases de desaceleração econômica.

 

Wanderleya Farias

Professora Adjunta do Departamento de Economia da UFPB

Pesquisadora do NPPDS – Núcleo de Políticas Públicas e Desenvolvimento Sustentável da UFPB’



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