A pós-economia do Covid 19

Artigo 18/04/2020


Existe um debate entre alguns economistas que estou denominando de escolha de Sófia. Como já falei aqui, este termo foi cunhado por conta de um filme estrelado por Meryl Streep cujo título era justamente “A Escolha de Sofia”. Neste, o personagem Sófia enfrenta um dilema de fazer uma escolha difícil. Um oficial nazista coloca as seguintes alternativas, ela deve escolher entre a morte de um dos dois filhos ou se não fizer a escolha, o oficial mataria os dois.

Muitos afirmam que a escolha entre o isolamento social e a abertura da economia seria um tipo de escolha de Sófia. Hoje eu não quero falar mais sobre isto, mas no que eu acho que será a economia se o isolamento for da maneira que o atual presidente da república imagina que deva ser.

No meu entendimento, se a profecia de Bill Gates estiver correta, que previu que a humanidade irá morrer de uma pandemia provocada por um vírus letal, este Covid-19 será apenas mais um vírus com capacidade de criar uma pandemia e terão outros cada vez piores. É só observar a sequência, poucos anos atrás tivemos Ebola, Gripe Aviária, H1N1, entre outros. Neste ambiente de incertezas, onde os agentes econômicos não têm a menor ideia de qual é a probabilidade de escapar ou não de uma doença, a economia nunca mais será a mesma. Vamos imaginar as seguintes atividades bem simplórias para evidenciar minha opinião.

Daqui em diante muitos terão coragem de ir a um jogo de futebol, ou qualquer outro jogo de qualquer atividade esportiva, e ficar numa arquibancada com pessoas bem coladas e esperar que elas gritem gol, cesta, ou o que for, e veem jogar a saliva no ar? Ou ir para um restaurante, como aqueles que ficam nos mercados públicos, em que as mesas ficam tão coladas umas nas outras que quase dá para uma pessoa pegar o prato da mesa vizinha e levar para sua mesa? Ou colocar um filho numa escola que tem mais de 40 alunos em salas pequenas e as bancas de estudos ficam bem perto uma das outras? Ou iremos num bar beber sem saber como os copos são limpos? Ou ir para um parque de diversão em Orlando e enfrentar uma fila enorme com todos uns colocados nos outros?

 Ou ir a um consultório médico que fique num prédio construído para exatamente abrigar consultórios e que as salas de espera sejam minúsculas e apinhadas de gente por que as consultas pagas pelos planos de saúde só permitem que os consultórios sejam viáveis se atenderem por dia um quantitativo enorme de pacientes? Ou frequentar um shopping Center num domingo que terá muita gente e sem possuir janelas?

Esses são exemplos comezinhos, do dia a dia de um cidadão comum. Vamos para situações maiores. Muitos afirmam que o vírus é chinês e que a culpa é toda da China. Mas pensem bem, a China não se tornou a fábrica do mundo porque pediu, mas porque tem custos de produção menores. Ela concentra 93% da produção de todos os respiradores usados em um UTI no mundo. Na produção de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) detém quase 95%. Se um governador, prefeito ou secretários de saúde tivessem a atitude de comprar um EPI ou respirador nacional com a justificativa de promover a indústria nacional teria na porta de sua casa às 5:00 a Polícia Federal porque o ministério púbico de todo tipo estaria acusando-o de malversação de verbas públicas, ou seja, teria sua reputação como gestor público arruinada por acusações de corrupção porque comprou um equipamento a custos maiores.

 A concentração de enormes blocos de produção na China não foi uma obra do acaso. Várias grandes empresas mundiais têm na China um elo importantíssimo de suas cadeias de produção, notadamente a eletrônica e a automotiva. O futuro do carro elétrico estava na China antes da pandemia.

Tudo isto será contestado a partir de agora. O nacionalismo econômico ficará em voga. Este imporá ao consumidor interno um preço maior porque suas estruturas de custos serão maiores, seus produtos serão tecnologicamente piores. Os centros de pesquisa e desenvolvimento serão obrigatoriamente internalizados nas economias nacionais, os institutos de pesquisa, que no Brasil se concentra muito nas Universidades Federais, terão que ser apoiados. O símbolo de nossos equipamentos eletrônicos não serão mais maças, como nos equipamentos da americana APPL, mas uma jabuticaba, que é genuinamente brasileira. Resumo, teremos custos de produção maiores, produtos piores com preços maiores. A pós economia do covid-19 não será a mesma. Espero que esteja vivo para ver.    

 

Profº Paulo Amilton

Chefe do Departamento de Economia da UFPB



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